Acrescente pormenores

O romancista Gustave Flaubert foi o autor da célebre máxima “Deus está nos pormenores”, talvez inspirada no dito alemão “O diabo encontra-se nos detalhes”. Quantas mais particularidades um indivíduo acrescenta a uma história, mais verdadeira ela parece, mesmo quando não passa de um chorrilho de aldrabices. Por isso, os mentirosos recheiam os seus álibis com mil e um detalhes, destinados a impressionar. Perguntem a um polícia ou a um juiz, e ambos confirmarão este facto.

Ora, como sabemos, não há mentiroso mais hábil do que um escritor: as personagens, o enredo e às vezes até o cenário são puras ficções, produzidas na forja da imaginação. Para enganar os leitores, os homens e mulheres de letras recorrem ao poder de pormenores curiosos, humorísticos ou importantes para a narrativa. Estes concedem realismo e credibilidade à história, por oposição a detalhes entediantes, que apenas fazem o leitor bocejar.

Um bom exemplo da arte do detalhe encontra-se nas páginas da epopeia marítima Moby Dick, de Herman Melville, um romance acerca de um cachalote de cor branca, que nenhum baleeiro consegue vencer. No início da história, o marujo Ishmael pernoita numa hospedaria, antes de embarcar. Como a estalagem está lotada, tem de partilhar a cama com um arpoeiro, que ainda por cima é canibal. O desconhecido, de nome Queequeg, é descrito com uma minúcia tão deliciosa quanto assustadora:

“A porta do quarto abriu-se. Apareceu uma silhueta gigante e sinistra. Era de cor castanha, com o rosto pintado de quadrados negros. Talvez fosse um costume dos mares do sul tatuar a face com aquelas figuras. Mas o toque pessoal mais estranho era a cabeça: toda rapada, à navalha, com uma trança na parte da frente. Parecia um rabo-de-cavalo, fazendo um arco, como um capacete. Diante daquela aparição tive ímpetos de pular pela janela, mas o quarto era no segundo andar. O meu medo foi tanto que não tive coragem de cumprimentá-lo, nem de explicar-lhe a situação. Ele começou a tirar a roupa e eu pude ver que o seu corpo, os braços, o peito, as pernas, eram também tatuados. Que noite iria eu passar com aquele selvagem, comedor de carne crua e vendedor de cabeças humanas?”

Melville poderia simplesmente ter afirmado que o companheiro de Ishmael era um indígena polinésio, e deixar ao leitor a tarefa árdua de o imaginar. Porém, como um bom romancista, optou por insuflar-lhe vida, através de uma série de detalhes. E não foram escolhidos ao acaso! Repare que todos os pormenores — as tatuagens, o penteado, a cor da pele ou a estatura — contribuem para realçar duas caraterísticas de Queequeg: o seu aspeto exótico e assustador.

O romance de Melville é considerado um dos dez melhores de todos os tempos, graças, em boa parte, ao pormenor realista. Através da imaginação e do recurso ao divino detalhe, o autor esforça-se por mentir bem; por seu turno, o leitor finge acreditar; e o jogo mágico da leitura principia.

Mancelos, João de. Manual de Escrita Criativa. Lisboa: Edições Colibri, 1.ª ed., 2012; 2.ª ed. aumentada, 2015.