Adense o mistério

Num romance policial, as pistas servem simultaneamente para elucidar e para confundir. Esta afirmação faz sentido, apesar do paradoxo. Quando um autor elabora o enredo planta, ao longo dos vários capítulos, determinados indícios. Assim, ao descobrir o criminoso, no final da obra, o leitor bate com a mão na testa e exclama: “É lógico! Já no capítulo três o mordomo roubara o abre-cartas… E a vítima foi morta precisamente com um objeto pontiagudo. Como não pensei nisso antes?”

A estratégia? Ser subtil, para que o leitor não desvende o mistério demasiado cedo, o que estragaria o prazer da descoberta. O truque? Escrever para trás. Ou seja, quando planificar uma narrativa policial, comece por magicar no crime e só depois semeie pistas que conduzam ao suspeito. Este método é usado, com êxito, por magos do policial, como Agatha Christie, Mary Higgins Clark ou Stieg Larsson.

Segundo Stephen D. Rogers, um especialista em romances policiais e de mistério, existem três tipos de indícios: as pistas físicas, que incluem impressões digitais, fragmentos de ADN, cápsulas de bala, etc.; as verbais, compostas por testemunhos, entrevistas aos suspeitos e também certas omissões suspeitas, que por vezes denunciam o criminoso; as temáticas, resultantes de associações: o banqueiro vestido de negro pode ser o vilão; a mulher que ri nervosamente é talvez a chantagista, etc.

Neste contexto, Rogers oferece alguns conselhos úteis a quem desejar escrever histórias de roubos, assaltos, assassinatos, fraudes e todo o cardápio da malvadez humana. Uma primeira dica: as pistas devem ser suficientemente ambíguas para permitirem diversas interpretações. Por exemplo, a marca dos pneus de um carro à porta de casa da vítima tanto pode ser da viatura do raptor como da carrinha que faz a distribuição do correio.

Segunda dica: as pistas podem apontar para várias pessoas, abrindo assim o leque dos suspeitos, em vez de o estreitar. Imagine que o cofre de um quarto de hotel, onde está guardado um valioso colar de diamantes, é arrombado. Quem será o autor do crime? A empregada de limpeza? O funcionário que veio consertar a torneira do lavatório? Ou a mulher libidinosa com quem o hóspede passou a noite?

Terceira dica: evite um dilúvio de pistas, todas no mesmo capítulo, o que tornaria a obra entediante e o enredo forçado. É preferível semeá-las pouco a pouco, até para ir criando suspense.

A leitura é um jogo de esconde e mostra, sobretudo num livro policial. Como afirma Ricardo Piglia, é preciso “enfrentar enigmas, reconstruir factos, recolher testemunhos, fazer hipóteses”. No fim de contas, o detetive mais astuto até nem é a personagem, mas sim o próprio leitor.

Proponho-lhe um exercício simples, para treinar a criação de indícios. Imagine que se encontra a investigar o rapto de uma criança de dez anos, do sexo feminino, que foi deixada em casa, pelos pais, num sábado à tarde, a brincar sozinha. Que objetos indiciadores poderia encontrar na cena do crime? Que perguntas colocaria aos familiares e vizinhos da menina?

Mancelos, João de. Manual de Escrita Criativa. Lisboa: Edições Colibri, 1.ª ed., 2012; 2.ª ed. aumentada, 2015.