Aumente o suspense

Conseguirá McGyver desativar a bomba nos poucos segundos que lhe restam, ou será reduzido a pó? Irá Robinson Crusoe escapar ao apetite insaciável dos canibais? Haverá um futuro cor de rosa para Elizabeth e Mr. Darcy, ou serão para sempre afastados pelo orgulho e preconceito? Quer se trate de um thriller ou de uma história romântica, o suspense encontra-se em toda e qualquer narrativa e sem ele não existirá, verdadeiramente, um enredo.

No decurso da história, o leitor aguarda, de coração nas mãos, torcendo para que o herói ou heroína supere todos os obstáculos e provas. Por vezes, incapaz de resistir à ansiedade, até faz batota e salta algumas páginas, para vislumbrar o desenlace do enredo. É compreensível, pois o suspense gera no leitor o mesmo efeito de uma bomba-relógio prestes a explodir: o coração bate depressa, o ritmo da respiração aumenta e o nível de adrenalina dispara.

Existem inúmeras estratégias para enervar o leitor, e romancistas como Agatha Christie, John Le Carré ou João Aguiar dominaram-nas perfeitamente. Se é um escritor aprendiz, recomendo-lhe a “técnica da escada”, a forma mais básica para criar suspense. Imagine o enredo da sua história como uma escada que o protagonista deverá subir, pouco a pouco, ao longo da aventura. Cada degrau representa um desafio a enfrentar: quando o herói ultrapassa um, surge-lhe outro, mais elevado, correspondendo a uma dificuldade maior. O cimo da escada é o clímax, ou seja, o ponto alto da ação. É quando ocorre o duelo de vida ou de morte entre o guerreiro e o dragão, ou o momento em que o camponês confessa o seu amor à princesa, receoso de não ser correspondido.

Numa narrativa bem estruturada, o suspense vai aumentando, pouco a pouco e, com ele, o sofrimento tanto do herói como do leitor, até à vitória final.

Ao planificar a história, tenha em conta dois conselhos, para não tropeçar na escada do suspense. Primeiro, nunca coloque uma dificuldade menor a seguir a uma maior, ou interromperá o crescendo da tensão com um anticlímax. Seria como um desagradável esguicho de água gelada, durante um duche quente. Segundo, evite criar demasiados obstáculos no enredo, pois a ansiedade, em excesso, também maça o leitor. Este pode até julgar que o protagonista carece da inteligência e coragem necessárias para levar a cabo, com êxito, a missão.

Num livro sugestivamente intitulado The Neurotics Notebook, de Mignon McLaughlin, a autora argumenta: “Até os covardes conseguem suportar a dureza. Mas apenas os bravos aguentam o suspense”. Incerteza, ansiedade, terror. Na vida real, tememos esses sentimentos, é certo, mas na ficção alimentamo-nos deles com gosto e pedimos mais. Porquê? Talvez ler romances de ação constitua um exorcismo dos nossos próprios medos, ou uma forma de aprender a solucionar problemas, com a ajuda das personagens que admiramos. Afinal, no fantástico mundo das letras, todos somos heróis e cada página é uma aventura.

Para treinar a arte do suspense, sugiro-lhe que desenvolva o seguinte exercício: você foi enterrado vivo, por negligência hospitalar. Acorda dentro do caixão. Escuta algumas vozes à superfície, possivelmente das pessoas que vieram ao seu funeral.

Mancelos, João de. Manual de Escrita Criativa. Lisboa: Edições Colibri, 1.ª ed., 2012; 2.ª ed. aumentada, 2015.