Crie as personagens

No último Outono, ao arrumar o sótão, descobri a caixa onde guardava o maior tesouro da minha adolescência: meia centena de livros aos quadradinhos, protagonizados por heróis como o Homem-Aranha, Batman ou a Mulher Maravilha. Soprei o pó de uma capa: o Super-Homem esvoaçava por entre os arranha-céus de Metrópolis, o punho erguido desafiando as forças do mal. Gerações de rapazes e raparigas como eu admiraram aqueles heróis de papel e tinta, a sua ética, a energia, os poderes extraordinários.

Acredito que os grandes protagonistas fazem as grandes histórias. Poucos leitores recordam com pormenor as aventuras de Dom Quixote, mas quase toda a gente já ouviu falar nele. Isto significa que a personagem é mais memorável e importante do que o enredo da história e, por isso, o escritor aprendiz deve saber construí-la. E se inventássemos um super-herói para os dias de hoje? Existem, na Escrita Criativa, técnicas que o podem ajudar nesta tarefa, evitando erros desnecessários.

Primeiro conselho: um jovem leitor deve aderir à personagem, sofrer com ela quando perde e regozijar-se com as suas vitórias. Para tal, é necessário estabelecer empatia com o super-herói. Este deve possuir qualidades como a força, a coragem, o carisma e altruísmo. No entanto, se um herói fosse imortal, a vitória contra a força das trevas seria previsível e as aventuras não gerariam suspense. Por isso, é sensato atribuir-lhe defeitos e medos que o aproximem da condição humana do leitor. Até o Super-Homem tem problemas, desde uma malha nos “collants”, até à kriptonite, uma substância radioativa letal.

Já reparou que a maioria dos protagonistas possui poderes de animais? O Homem-Aranha trepa pelos edifícios, Batman emerge como um morcego na noite da Gotham City, enquanto o Tarzan é um verdadeiro homem-macaco, saltando de liana em liana, com um grito animalesco. Por que não criar um herói com as capacidades de um animal da fauna lusitana: um lince da Malcata, um golfinho do Tejo ou um lobo de Trás-os-Montes?

Por fim, não esqueça que os heróis possuem um lado humano: Clark Kent (Super-Homem) apaixonou-se por Lois Lane, colega no jornal Daily Planet. Quando a via, gaguejava e compunha os óculos nervosamente, revelando uma timidez que fazia rir os leitores. Alternando com a aventura, uma história romântica desenfastia da ação, e proporciona um momento para ganhar fôlego. Por outro lado, revela a faceta mais frágil, mas não menos bela, de um herói.

Passei o resto da tarde no sótão, a folhear os livros aos quadradinhos que redescobrira após trinta anos, e confesso que senti a mesma admiração de outrora. Tal como os gregos e os latinos tinham vibrado, na Antiguidade, com Hércules, Aquiles ou Diana, também hoje admiramos os super-heróis e gostaríamos de ser como eles.

Daniel Pennac, em Como um romance, afirmou que amar os protagonistas dos livros é um direito do leitor. E constitui, acrescento, o nosso passaporte para o sonho neste mundo demasiado real.

Exercício. Convide a sua personagem a dar um passeio e entreviste-a, recolhendo os seguintes dados: nome e alcunha; sexo; idade; aspeto físico; uma qualidade; um defeito; vida amorosa; partido político; profissão; maior medo. Depois preencha uma ficha com essas respostas. Muita desta informação não será utilizada na narrativa; contudo, é útil para que o escritor imagine melhor a personagem.

Mancelos, João de. Manual de Escrita Criativa. Lisboa: Edições Colibri, 1.ª ed., 2012; 2.ª ed. aumentada, 2015.