Crie os diálogos

Os romancistas do século XIX consideravam o diálogo uma forma inferior de escrita, própria da literatura popular, preferindo exibir o seu talento através de extensas descrições e retratos psicológicos das personagens. O resultado era, por vezes, um livro tão bocejante que podia concorrer com os mais poderosos soporíferos.

Felizmente, os autores contemporâneos verificaram que um diálogo bem engendrado concede vivacidade e ritmo ao texto. Faça uma experiência: tire da estante um romance escrito nos últimos vinte anos e folheie-o, prestando atenção à mancha tipográfica. Aposto que metade desse livro é diálogo. Não se trata de um estratagema para preencher papel! Na ficção, uma boa conversa cumpre várias funções importantes: mostra o estado de espírito da personagem naquele momento; revela intrigas e projetos; gera suspense, quando ocorre entre personagens com opiniões opostas, etc.

Neste contexto, é imprescindível ensinar as suas personagens a falar com naturalidade. Para tanto, há que treinar o ouvido: o escritor aprendiz deve escutar, discretamente, as conversas alheias, captando os tiques próprios de um diálogo do quotidiano. Hoje, à hora do jantar, saia pé ante pé do seu apartamento, e encoste a orelha à porta da vizinha.

Num caderno de notas, registe termos típicos da linguagem corrente, como “ouve lá”, “não é?”, “que tal?”, “pá”, “mmm”, “pronto!”, “sei lá”, “ora bolas!”. Ao examinar a lista, verificará que uma conversa real inclui vocabulário simples, interjeições e até asneiras capazes de surpreender o papagaio mais malcriado. Recorra a estes elementos para conceder verosimilhança à troca de palavras entre as suas personagens.

Outra estratégia para gerar um diálogo vívido consiste em não atribuir mais de vinte e cinco palavras a cada fala. Se uma personagem palrar durante uma dezena de linhas, por exemplo, tal não é realista, maça o leitor e desacelera o enredo. Uma dica: interrompa as falas mais extensas com perguntas ou comentários do interlocutor. Sugiro expressões como “tens a certeza disso?”, “vá, conta-me mais”, “a sério?”, “não me digas!”. Outra hipótese consiste em referir gestos da personagem, que denunciem o seu estado de espírito: “tamborilou nervosamente na mesa” ou “desviou o olhar, embaraçado”.

Por fim, recomendo-lhe cautela no uso de expressões atributivas tão bafientas e formais que soam ridículas na atualidade. Por exemplo, substitua “inquiriu” por “perguntou”; “retorquiu” por “respondeu”; “arrazoou” por “disse”; “aquiesceu” por “concordou”; “rumorejou” por “sussurrou”. Palavras invulgares desviam a atenção do leitor do que é dito para a forma como é dito, e assim quebram a fluidez do diálogo.

Em suma, se o aprendiz redigir uma conversa credível, o leitor “escutará” as personagens com a sua pronúncia, tiques e manias, e aderirá facilmente ao enredo. Porque, como disse a professora de Escrita Criativa Melissa Donovan, “Falar é barato, mas um diálogo bem feito vale milhões”.

Para praticar esta técnica, proponho-lhe que redija um diálogo entre: a) Uma rapariga atrevida e um jovem conservador, numa esplanada, num dia escaldante de verão; b) Um vizinho que pergunta a outro, no elevador: “É verdade que a sua mulher o anda a trair com o porteiro?” Seja criativo!

Mancelos, João de. Manual de Escrita Criativa. Lisboa: Edições Colibri, 1.ª ed., 2012; 2.ª ed. aumentada, 2015.