Crie surpresas

Inserir uma surpresa numa história é como tirar um coelho da cartola: todos ficam espantados e adoram o truque. Um incidente imprevisível, uma reviravolta súbita na narrativa, ou a aparição repentina de uma personagem estranha — qualquer uma destas surpresas anima o enredo e leva o leitor a virar as páginas para desvendar o que vai suceder. Sol Stein, um guru da Escrita Criativa, explica a artimanha para gerar surpresas: “analise cada acontecimento importante da história e veja o que normalmente ocorreria a seguir. Depois, faça suceder exatamente o oposto. Na maioria das vezes, conseguirá espantar-se a si e às suas personagens”. Parece simples, não é verdade?

Mas não é. Para funcionar com total eficácia, a surpresa deve ser preparada por pistas ou indícios ao longo do romance. Assim, quando surge, é plausível. O leitor bate com a mão na testa e exclama: “É claro que foi o mordomo quem assassinou a patroa! No quinto capítulo, ele estava a lavar o picador de gelo. Foi com aquilo que a matou!”.

No entanto, se o leitor adivinhar, a meio de um romance, qual vai ser o fim, o efeito da surpresa perde-se por completo. É o que sucede quando, no Natal, desembrulhamos a prenda de uma tia que nos oferece sempre um par de meias da mesma cor. Por isso, cautela! Forneça algumas pistas que tornem a surpresa plausível, mas não demasiadas — ou o coelho espreitará pela cartola antes de o truque de magia terminar.

Evite também as surpresas caídas do céu: no último minuto, chega a cavalaria e salva os cowboys de serem escalpados pelos índios; o lojista à beira da falência ganha uma fortuna no totoloto; a menina à espera de um rim consegue um dador compatível, quando já parecia não haver esperança; o Sr. Silva, eletricista, não foi raptado por extraterrestres — tratou-se apenas de um pesadelo que teve depois de se embriagar.

Estas surpresas revelam pouca imaginação e, claro, desacreditam o autor. São conhecidas por soluções ex machina, uma expressão que remete para um expediente usado pelos dramaturgos gregos e latinos na antiguidade. Quando a trama de uma peça teatral parecia insolúvel, um guindaste baixava até ao palco um ator trajado de deus. Munido de poderes celestiais, esta divindade distribuía castigos aos vilões e recompensas aos heróis, resolvendo, num ápice, todos os problemas. Não vá por aí.

Para além de ter em conta estes aspetos, é preciso saber que as boas surpresas facilitam a vida ao herói, mas encurtam a história, porque o colocam mais perto de atingir o objetivo. Como tal, surtem um efeito menor e passageiro sobre o leitor. Pelo contrário, as más surpresas colocam o protagonista em sarilhos, prolongam o suspense, dão aso a novos capítulos. Em suma, constituem autênticas bombas de adrenalina.

Invista nestas más surpresas, se a sua história começar a ficar entediante. É um dos mais velhos truques do ofício da escrita, tão antigo quanto sacar um coelho orelhudo da cartola. E resulta sempre.

Mancelos, João de. Manual de Escrita Criativa. Lisboa: Edições Colibri, 1.ª ed., 2012; 2.ª ed. aumentada, 2015.