Desbloqueie a inspiração

É frustrante. A folha em branco lembra um campo de gelo, onde nenhuma frase consegue germinar. Os papéis amachucados acumulam-se no cesto do lixo, cada um representando uma tentativa falhada para encetar um conto ou poema. O prazo de entrega do texto aproxima-se inexoravelmente. E o escritor rói o lápis, nervoso, enquanto os minutos passam, sem conseguir rabiscar algo importante.

Conhece esta sensação? Você não é caso único: todos os grandes autores, mesmo os mais prolíferos, enfrentaram este problema, que pode durar horas ou anos. Felizmente, a generalidade conseguiu ultrapassar o célebre “bloqueio do escritor”, e deixou-nos dicas sobre como vencê-lo. O que fazer se a inspiração não vem? Como voltar a acender a lâmpada das ideias?

Costumo ensinar aos meus alunos de Escrita Criativa uma técnica simples e eficaz: em vez de redigir um conto, imagine que escreve uma carta a um amigo, a relatar o sucedido. Como a carta é sempre mais informal do que uma história, e como o destinatário não é um crítico, mas sim um companheiro, as ideias fluem com facilidade. Depois, pode transformar a carta num conto, burilando o estilo, acrescentando diálogos vivos e descrições pormenorizadas.

Quebre a sua rotina: se habitualmente escreve em casa, saia e transforme um banco de jardim no seu novo escritório. Se usa o computador, desligue-o, e vá ao sótão buscar a velha máquina de escrever. Costuma ouvir música clássica? Tente outros géneros, heavy metal! O cérebro humano está sempre atento às mudanças, por mais ténues, e estas podem gerar autênticas tempestades de ideias.

A luso-americana Katherine Vaz, autora de Fado e Outras Histórias, sugere uma técnica de autotortura: durante um dia inteiro o escritor não pode fazer rigorosamente nada: não toma banho, não passeia o caniche, não vê televisão. A única tarefa a que se pode entregar é — adivinhou! — escrever. A mente fica de tal forma farta da indolência que a imaginação se liberta, tarde ou cedo, e surgem as primeiras linhas de um texto. É arrasador para os nervos, mas funciona!

Já Ray Bradbury, autor de Fahrenheit 451, entre outros romances, e de centenas de contos, apresenta uma sugestão polémica para lidar com o bloqueio: escreva… pior. Depois, poderá retocar o texto, corrigir as passagens vergonhosas e conseguir, talvez, uma obra decente. O pressuposto deste método é simples: mais importante do que escrever é rever, pelo que até à data da entrega do manuscrito é possível introduzir melhorias.

Se nem com estas técnicas o escritor aprendiz consegue resolver o problema, então lembre-se disto: a inspiração é apenas a faísca que acende a fogueira. Como afirma Leonard Bernstein, “A inspiração é ótima quando acontece, mas o autor tem de desenvolver outras abordagens durante o restante tempo. Esperar não é uma opção”.

Como exercício, proponho-lhe que reflita sobre as seguintes questões: a) Como resolve o problema da desinspiração? b) Onde consegue escrever mais facilmente?; c) A que hora do dia? Com base nestas respostas, crie a sua rotina/hábito de escrita e deixe as ideias fluírem.

Mancelos, João de. Manual de Escrita Criativa. Lisboa: Edições Colibri, 1.ª ed., 2012; 2.ª ed. aumentada, 2015.