Descreva os locais

Cada lugar tem a sua atmosfera e transmite ao visitante uma sensação única. Um bom escritor deve captar esse espírito e descrever o local com verosimilhança. A sua missão é expulsar o leitor do sofá e transportá-lo para o espaço da história — seja ele a exótica ilha de Robinson Crusoe, ou o planeta longínquo onde Flash Gordon aterrou.

No romance Tempos Difíceis, Charles Dickens descreve Coketown, uma urbe imaginária, parecida a tantas outras na época da Revolução Industrial: “Era uma cidade de tijolo vermelho, ou seria, se o fumo e as cinzas o tivessem consentido: assim, era uma cidade vermelha e preta, como o rosto pintado de um selvagem. Era uma cidade de máquinas e chaminés, das quais saíam sem cessar serpentes intermináveis de fumo, que nunca se desenroscavam. Tinha um canal negro e um rio manchado de roxo por tintas malcheirosas, e pilhas de edifícios cheios de janelas, onde todo o dia havia estremecimentos e onde os êmbolos das máquinas a vapor subiam e desciam, melancolicamente, como a cabeça de um elefante louco”.

Neste parágrafo, o leitor visualiza uma cidade inglesa do século XIX, e sente que está ali, entre as fábricas e os canais poluídos. Como conseguiu Dickens captar tão bem a atmosfera do lugar? O romancista esquivou-se às três armadilhas em que tantos caem quando redigem uma descrição.

Em primeiro lugar, prescindiu de pormenores inúteis, que dispersariam a atenção do leitor. Poderia ter descrito mil e um aspetos de Coketown; em vez disso, concentrou-se em transmitir um traço único e dominante: a poluição que desfeia a cidade. Para tanto, recorreu a comparações entre o fumo e a serpente, o êmbolo e o elefante; a adjetivos desagradáveis (“malcheirosas”, “negras”, “manchado”); aos verbos que ilustram o movimento monótono das máquinas. É uma técnica eficaz, a que Edgar Allan Poe, o mestre do conto gótico norte-americano, chamou “unidade de efeito”.

Em segundo lugar, Dickens evitou demasiados adjetivos, para não sobrecarregar o estilo. Mark Twain dizia: “Se virem um adjetivo, matem-no”. Na verdade, para quê dizer “o leve vento”, quando podemos escrever “a brisa”? É preciso que as frases respirem, libertas do excesso de palavreado. Vale mais um substantivo bem escolhido, um mot juste, do que um rol de atributos.

Por fim, Dickens não retratou Coketown objetivamente, como faria um amador; antes transmitiu algo mais importante: a impressão que os habitantes têm do lugar. Para tanto, usou uma única palavra: “melancolicamente”. Este advérbio exprime o estado de espírito dos pobres operários, que penavam longas horas nas fábricas e, ao mesmo tempo, condiciona a perceção do leitor.

Em suma, quando descrever, evite os pormenores fúteis, o excesso de adjetivos, e a objetividade seca; prefira a atmosfera dominante, a palavra acertada e a sensação que o espaço provoca em si. Só assim expulsará o leitor do sofá para o lugar onde a imaginação é mais real do que o mundo.

Descreva um dos seguintes espaços: uma caverna nunca explorada por seres humanos; uma floresta numa noite quente de verão; o quarto desarrumado de um estudante universitário; um bar onde se toca jazz ou blues, num serão de sexta-feira. Inclua pormenores relevantes e recorra à visão, ao olfato, à audição e ao tato.

Mancelos, João de. Manual de Escrita Criativa. Lisboa: Edições Colibri, 1.ª ed., 2012; 2.ª ed. aumentada, 2015.