Desenvolva a ideia

Mary Higgins Clark é conhecida como a rainha do suspense, um título justificado, se pensarmos nos numerosos livros policiais que escreveu, vários deles adaptados ao cinema, e na quantidade espantosa de exemplares vendidos: oitenta milhões. As suas histórias abordam temas contenciosos, como a pedofilia ou a necrofilia, mas de forma tão intrigante que é impossível não prosseguir a leitura.

A autora resume, com simplicidade, o seu conceito de uma narrativa de êxito: “Se uma história for particularmente boa, você começará a ouvir ruídos na sua própria casa — a escada a estalar, o vento ao longe, a caldeira a aquecer”. Clark consegue o envolvimento do leitor recorrendo a diversas técnicas que surtem efeito: interromper um capítulo num ponto alto de suspense, lançar falsas pistas, surpreender, reduzir as descrições e ampliar os momentos de ação.

Quando lhe perguntam que técnica utiliza para desenvolver a intriga dos seus romances, a autora explica que recorre a um jogo que aprendeu com um professor de escrita criativa. Este recomendava-lhe que colocasse constantemente a mãe de todas as perguntas, a que permitia desbloquear a inspiração e prosseguir a história: “e se…?”.

Muitas vezes, esta simples questão (espécie de “abre-te, sésamo!”) serviu de ponto de partida a grandes clássicos da literatura universal. Por exemplo: e se um amante de romances de cavalaria decidisse partir em busca da aventura, na companhia de um velho rocim e de um escudeiro gorducho e desajeitado? E se um marinheiro fosse o único sobrevivente de um naufrágio e ficasse confinado a uma ilha inóspita, tendo como vizinhos uma tribo de canibais? E se um homem de meia-idade se deixasse seduzir por uma adolescente de sorriso lascivo?

Consegue adivinhar a que romances me refiro? Naturalmente. “As aventuras do engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha”, de Miguel de Cervantes, a obra mais vendida a seguir à Bíblia; “Robinson Crusoe”, de Daniel DeFoe, inspirado na vida do marinheiro escocês Alexander Silkirk, que passou quatro anos de abandono em Más a Tierra, hoje conhecida como a ilha de Robinson Crusoe; e “Lolita”, de Vladimir Nabokov, romance que cunhou o termo para designar toda e qualquer rapariga atrevidota.

Vejamos como é possível desenvolver integralmente uma história com base nestas questões: e se uma rapariga quer ir a uma entrevista de emprego, mas o seu automóvel não pega? E se aceita boleia de um vizinho aparentemente simpático? E se este opta por outro caminho, ardendo de más intenções, e leva a rapariga para uma floresta? E se tenta abusar dela? E se esta se defende, acabando, acidentalmente, por matá-lo? E se a jovem opta por nada contar às autoridades, por vergonha ou medo de ser acusada de homicídio? E se alguém assistiu a toda a cena, e decide fazer chantagem com a rapariga?

Elaborar uma história recorrendo à mãe de todas as perguntas pode ser um jogo fascinante e de consequências imprevisíveis. Desenvolva uma narrativa a partir destas perguntas: e se, no ginásio, ao sair do duche, toda a sua roupa e a toalha tivessem desaparecido? E se não houvesse ninguém no balneário? E se a rececionista fosse uma idosa com problemas cardíacos?

Mancelos, João de. Manual de Escrita Criativa. Lisboa: Edições Colibri, 1.ª ed., 2012; 2.ª ed. aumentada, 2015.