Determine o conflito

Janet Burroway afirmou: “Na literatura só os sarilhos interessam. É preciso criar conflitos para transformar os grandes temas da vida numa história: nascimento, amor, sexo, trabalho e morte”. Neste sentido, um escritor deve saber tirar partido da maldade entranhada no coração humano, para produzir narrativas com garra. O seu papel consiste em arranjar problemas entre as personagens, envenenar as situações, prolongar os atritos, em suma, meter toda a gente em sarilhos. Isto é válido tanto para um romance bélico como para a mais ternurenta história de amor.

Os conflitos mais comuns são os interpessoais (com a sogra, o patrão, o caniche do vizinho, etc.). O escritor Ian McEwan combina, com engenho, vários atritos no célebre romance Sábado. O protagonista, o neurocirurgião Henry Perowne, enfrenta um dia de pesadelo: um bando de desordeiros choca com o seu Mercedes novinho em folha; o parceiro do jogo de squash inflige-lhe uma vitória esmagadora e leva-o a um ataque de nervos; a filha recém-chegada de França responde-lhe torto; e, como se não bastasse, dois rufiões sequestram-no na própria casa. Tudo isto em apenas vinte e quatro horas!

Não é necessário ir tão longe quanto Ian McEwan para criar conflitos numa narrativa. A minha técnica dileta é mais simples e não menos eficaz: chama-se “panela de pressão”. Consiste em fechar durante um longo período de tempo, num espaço exíguo do qual não possam sair, duas ou mais personagens que se detestem até à medula. A vida está repleta de situações destas: dois colegas adversários partilham o escritório; o marido e a mulher não se suportam, mas recusam o divórcio por causa dos filhos; Robinson Crusoe vive na mesma ilha que os canibais e não pode fugir.

Num ambiente fechado como uma panela de pressão, as consequências não se fazem esperar. Imagine, por exemplo, um primeiro-ministro e um líder do principal partido da oposição presos num elevador avariado, durante quatro horas. A princípio, conversam sobre banalidades, como o estado do tempo, evitando com pés de lã os temas mais contenciosos. Porém, à medida que a paciência se esgota e aumenta o irreprimível desejo de ir à casa de banho, as questões políticas vêm à baila — e o elevador transforma-se numa arena. As personagens entram em ebulição, gritam e esfarrapam-se, proporcionando ao leitor uma cena animadíssima.

Ah, não tenha qualquer remorso: ao complicar a vida aos heróis e aos vilões, cumpriu a sua missão de escritor, porque sem conflito, não há história. E, confesse, uma maldade sabe sempre bem, não é?

Partindo do exemplo que dei, exercite a sua escrita, inventando um diálogo, cada vez mais tenso, entre os dois políticos presos num elevador. Para tanto, recorra a falas cortantes, acusações venenosas, insultos às respetivas mães e polvilhe tudo com um toque de sarcasmo. São estes os ingredientes que completam a receita de um conflito cozinhado numa panela de pressão.

Mancelos, João de. Manual de Escrita Criativa. Lisboa: Edições Colibri, 1.ª ed., 2012; 2.ª ed. aumentada, 2015.