Escolha o narrador

Selecionar o ponto de vista do narrador é uma das decisões mais importantes a tomar, antes de começar a escrever um romance. Existem três possibilidades: o narrador de primeira pessoa (um “eu” conta a história), o de segunda (é muito raro, trata o leitor por “tu” ou “você”) e o de terceira (o mais comum).

Com graça, James Wood, no livro A Mecânica da Ficção, afirma: “A casa da ficção tem muitas janelas, mas apenas duas ou três portas. Posso contar uma história na terceira pessoa ou na primeira pessoa, e talvez na segunda pessoa do plural, embora sejam escassos os exemplos bem-sucedidos destes últimos modos. E é tudo. Qualquer outra coisa não vai provavelmente assemelhar-se a narração; estará mais próxima da poesia, ou da prosa poética”.

Destas três hipóteses, o narrador de primeira pessoa é talvez o que mais envolve o leitor, sobretudo quando é também o protagonista da ação. Nessas ocasiões, sofremos, rejubilamos e sonhamos com a personagem e vestimos a sua pele, até que a palavra “fim” nos separe.

O narrador de primeira pessoa é o mais adequado numa biografia ficcional. Um bom exemplo encontra-se no romance Agulha em palheiro, do escritor norte-americano J. D. Salinger. Logo nos parágrafos de abertura, o narrador assume a maneira de escrever de um jovem que quer confessar a sua angústia existencial:

“Se estão realmente interessados nisto, a primeira coisa que desejarão saber é o local onde nasci, o modo como passei a minha estúpida infância, a ocupação dos meus pais, o que faziam antes de eu nascer, e tudo o mais, como se se tratasse de David Copperfield. Mas eu não estou com disposição para isso, se, de facto, querem que vos conte a verdade. (…) Só vos falarei do que se passou comigo durante o passado Natal, antes de ficar um pouco confuso e de ter de vir para aqui”.

No entanto, este tipo de narrador também apresenta limitações, que um escritor aprendiz deve conhecer. Tudo é percecionado por apenas uma pessoa (a que conta a história). Nestas circunstâncias, o leitor não penetra na mente das outras personagens e só sabe, vê e experiencia o que o “eu” conta.

Para além desta desvantagem, existe uma outra, talvez mais grave: quando um autor aprendiz conta uma história do ponto de vista do “eu” tende, muitas vezes, a socorrer-se das próprias vivências. É útil e benéfico servir-se do que conhece, não há dúvida. No entanto, ao fim de alguns contos, por exemplo, começará a reparar que os seus narradores são todos parecidos… consigo.

A situação complica-se quando o narrador relata acontecimentos dolorosos semelhantes aos que você, de facto, viveu. Nigel Watts explica que teve de mudar o ponto de vista de um romance na primeira pessoa, para se conseguir afastar deste, e contar a história. É que o “eu” envolve não apenas o leitor, mas também quem escreve. E assim o poder do “eu” é, paradoxalmente, o seu calcanhar de Aquiles.

Mancelos, João de. Manual de Escrita Criativa. Lisboa: Edições Colibri, 1.ª ed., 2012; 2.ª ed. aumentada, 2015.