Escolha o título definitivo

Costumo dizer aos meus alunos de Escrita Criativa que o título é o cartão-de-visita de uma obra, para o bem e para o mal. Muitas vezes, quem passeia por entre as estantes de uma livraria detém-se num romance porque o seu nome suscita curiosidade ou causa estranheza. Há pouco tempo adquiri o segundo volume da saga Millenium, de Stieg Larsson, precisamente por causa do título provocante: A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo.

Tanto os escritores como as editoras prestam atenção à escolha do título de uma obra, porque um nome apelativo vende. No entanto, batizar um livro nem sempre constitui uma tarefa fácil ou consensual.

Certos textos que hoje fazem parte da biblioteca da maioria dos leitores apresentaram, provisoriamente, títulos banais ou disparatados. O célebre romance de aventuras A Ilha do Tesouro, de Robert Lewis Stevenson, esteve quase para ser chamado O Cozinheiro Marítimo. Talvez um pirata gourmet o comprasse, sem hesitação, mas duvido do êxito de um livro com tal nome. Lev Tolstoi, o mestre da literatura russa, rejeitou o horrendo lugar-comum Tudo Está Bem quando Termina em Bem a favor de um título lapidar: Guerra e Paz. Charles Dickens foi outro autor que magicou constantemente no batismo dos seus romances. Para Tempos Difíceis, uma obra-prima que espelha as dificuldades do povo durante a Revolução Industrial, listou catorze títulos possíveis, entre os quais o risível Dois e Dois São Quatro!

Qual o segredo de um bom título? Usando uma metáfora futebolística, o nome de um livro deve ser como o pontapé de saída de um jogo: curto e bem apontado. Um título breve, como Tubarão, de Peter Benchley, é mais facilmente memorizável do que um longo. Uma exceção de cinco estrelas é o nome do romance histórico de Mário de Carvalho, Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde. É extenso, mas a sua beleza quase lírica torna-o irresistível.

Outros títulos apelam diretamente à curiosidade do leitor. O Diário Secreto de Adrian Mole, o célebre romance de Sue Townsend, inclui palavras-chave cruciais, que convidam à coscuvilhice. Afinal, quem não tentou espreitar o diário de uma irmã mais nova, para conhecer os esqueletos que ela guarda no armário?

Contudo, por vezes, a simplicidade funciona brilhantemente. De longe, a escolha mais prática de um título cabe ao meu ex-professor Helder Macedo, que chamou Sem Nome ao seu romance mais satírico. O motivo foi simples: era esta a designação do ficheiro Word em que estava a trabalhar e acabou por se habituar a ela.

Sugiro-lhe que elabore sempre uma lista de títulos possíveis para as suas narrativas ou poemas, e que a discuta com colegas e amigos. Qual é o nome mais original? Será adequado ao assunto e conteúdo do texto, focando um aspeto relevante deste? É facilmente memorizável pelo leitor? Não se confunde com outros títulos já existentes no mercado? Se a resposta a estas quatro questões for afirmativa, o escritor aprendiz terá dado um bom pontapé de saída.

Mancelos, João de. Manual de Escrita Criativa. Lisboa: Edições Colibri, 1.ª ed., 2012; 2.ª ed. aumentada, 2015.