Escreva o parágrafo inicial

No metro de Nova Iorque, sentou-se em frente a mim um jovem que vestia uma camisola onde estavam escritas as primeiras linhas de História de Duas Cidades, o célebre romance de Charles Dickens: “Eram os melhores tempos, eram os piores tempos; a idade da sensatez e da loucura; a era da fé e da descrença; o Século das Luzes e a Idade das Trevas; a Primavera da esperança e o Inverno do desespero”, etc. É um princípio fabuloso, que inúmeros fãs conhecem de cor, e que o meu companheiro de viagem exibia com orgulho.

Os romanos chamavam incipit ao parágrafo de abertura de um texto; na gíria da Escrita Criativa, este é simplesmente conhecido por “anzol”. Faz sentido: um bom escritor deve saber “fisgar” o seu público através de um princípio cativante, que convide à leitura integral do texto. Frank Herbert, autor de Duna, afirmava que “o início é o momento mais delicado”. Não é simples criar uma frase que soe bem e atraia logo à partida. Porém, o escritor aprendiz pode desdramatizar a dificuldade dessa etapa da escrita, aprendendo algumas técnicas com os grandes mestres.

A forma mais básica de “fisgar” o leitor é surpreendê-lo ou, melhor ainda, chocá-lo. Franz Kafka, na novela A Metamorfose, consegue exatamente isso, em escassas palavras: “Uma manhã, ao acordar de sonhos inquietos, Gregor Samsa viu-se transformado num gigantesco inseto”. É um princípio curto e tão eficaz quanto um mergulho nas águas gélidas do Ártico. Se escrever um conto de terror ou policial, este tipo de abordagem garante a continuação da leitura, porque espicaça a curiosidade, através do suspense.

Já uma história centrada numa personagem requer um início diferente. Foque um aspeto curioso do protagonista, algo que o distinga da generalidade das pessoas de papel e tinta. Vale tudo: uma mania esquisita, uma profissão invulgar, um passado sombrio. No conto “Homero”, Sophia Andresen descreve o Búzio, um velho que simboliza a liberdade e a poesia:

“Quando eu era pequena, passava às vezes pela praia um velho louco e vagabundo a quem chamavam o Búzio. O Búzio era como um monumento manuelino: tudo nele lembrava coisas marítimas. A barba branca e ondulada era igual a uma onda de espuma”.

É um início perfeito: as frases são curtas e ritmadas, e a comparação do velho a um monumento é prodigiosa.

Finalmente, o que não deve fazer: evite começar um conto com uma descrição extensa e bocejante de uma paisagem bucólica. A menos que o leitor seja um botânico, ninguém quer saber se as rosas da Miss Fairfax desabrocharam mais cedo este ano. Porque um conto é uma narrativa breve, quanto mais cedo mergulhar na ação, sem empatar, melhor.

Um último conselho: gaste tempo com a elaboração do início da sua história, ponderando cuidadosamente as várias alternativas possíveis. Afinal, como afirma a escritora Jenny Newman: “Qualquer parágrafo que estimule o interesse do leitor constitui um êxito; qualquer um que não o faça é um completo falhanço”.

Mancelos, João de. Manual de Escrita Criativa. Lisboa: Edições Colibri, 1.ª ed., 2012; 2.ª ed. aumentada, 2015.