Estabeleça empatia

Imagine que o seu pai ou mãe escorrega nas escadas do prédio onde reside e parte uma perna. Você ficará preocupado ou mesmo em pânico, ao saber da notícia. Agora, pense que o mesmo sucede a um primo distante. Possivelmente, encolherá os ombros e dirá que estes infortúnios fazem parte da vida. E, contudo, em ambos os casos, a situação é a mesma: a fratura de um membro inferior. O que a distingue é somente o indivíduo a quem o azar bate à porta. Por outras palavras, interessamo-nos menos pelas ações e mais pelas pessoas.

Esta lição pode ser transposta para o mundo ficcional: se o leitor não gostar do protagonista, não se interessará por aquilo que lhe possa suceder e, como tal, porá o livro de parte. Assim, é importante criar esse laço invisível de afeto, essa afinidade ou preocupação pelo bem-estar do outro, a que chamamos “empatia”.

Como gerar empatia com o protagonista da sua história? Existem três estratégias possíveis. A primeira consiste em fazer o leitor admirar a personagem principal. Proponho-lhe este exercício: pense numa narrativa que lhe tenha agradado e liste as principais características do herói. Possivelmente, mencionará traços como a coragem, a inteligência, a bondade ou o sentido ético.

Porém, existe uma estratégia oposta para gerar empatia: a familiaridade. Em vez de criar um herói com qualidades prodigiosas, invente uma personagem com as manias e defeitos de qualquer um de nós: a gulodice, a preguiça, a insegurança, etc. Os leitores apreciam particularmente personagens vulgares que, em dado momento, enfrentam dificuldades incomuns.

Refletindo acerca deste tema, James Baldwin afirmou: “Você imagina que a sua dor e o seu coração quebrado não têm precedentes na história da humanidade, até ao momento em que lê. Os livros ensinaram-me que as coisas que me atormentaram são as mesmas que me ligam a todos os seres que vivem ou algum dia viveram”.

A empatia também pode ser criada através da compaixão para com a personagem principal. Ao longo dos anos, reli uma dezena de vezes o livro “À espera no centeio”, de J. D. Salinger, considerado um dos cem grandes romances em língua inglesa do século XX. Não consigo deixar de sentir ternura pelo protagonista, Holden Caulfield. É o protótipo do rebelde adolescente, deprimido pela sociedade hipócrita e agressiva dos anos quarenta, que procura uma réstia de inocência no mundo.

Numa das cenas mais líricas do romance, Holden contempla a pequena irmã, símbolo da inocência, debaixo da chuva: “Senti-me tão feliz só de ver a Phoebe ali, às voltas, às voltas, no carrocel. Para vos ser franco, senti-me tão feliz que, inexplicavelmente, tive vontade de gritar. Não sei porquê. Talvez porque a Phoebe estava linda, ali, às voltas, no carrossel. Oh, meu Deus, como eu desejava estar junto dela”.

E, por alguns momentos, também o leitor veste a pele de Holden, simpatizando com a sua causa rebelde de preservar a pureza e de agarrar ainda a infância perdida.

Agora é a sua vez de criar uma personagem! No livro The Writer’s Block, Jason Rekulak apresenta este exercício original, ainda que um pouco sinistro: visite um cemitério e sente-se junto à campa mais invulgar que aí exista. Usando apenas a imaginação, escreva acerca da pessoa que ali se encontra sepultada, estabelecendo empatia por ela.

Mancelos, João de. Manual de Escrita Criativa. Lisboa: Edições Colibri, 1.ª ed., 2012; 2.ª ed. aumentada, 2015.