Estruture o enredo

William Goldman, autor do argumento de Misery: O capítulo final, um “thriller” baseado num romance de Stephen King, afirmou, lapidarmente, que uma história é “estrutura, estrutura, estrutura”. Neste sentido, um escritor aprendiz deve estar atento às partes que compõem o enredo e à forma como se articulam. Como num relógio, se as pequenas peças estiverem colocadas no lugar certo e interagirem, o mecanismo funcionará.

A estrutura clássica de uma história é composta por várias partes que, no seu conjunto, constituem o arco narrativo ou, como prefiro chamar-lhe, o arco da fantasia. Reduzi-as a cinco, que considero essenciais: equilíbrio, incidente desencadeador, crescendo de obstáculos, clímax e epílogo.

A primeira instância, conhecida como equilíbrio, apresenta-nos a época do enredo, o espaço e as personagens na sua vida normal, sem suspeitarem que está prestes a desabar-lhes o mundo em cima. Nigel Watts afirma que este momento tranquilo corresponde ao “era uma vez” das histórias tradicionais.

Na segunda etapa, surge o incidente desencadeador, isto é, algo que perturba a rotina: um telefonema estridente a meio da noite anuncia uma tragédia; um objeto valioso é roubado; uma criança desaparece do parque de diversões, sem deixar rasto. Pequena ou grande, a situação deve captar a atenção do leitor. Em língua inglesa, este incidente é conhecido como “gatilho”, pois é ele que faz disparar a história.

A fase seguinte, a terceira, é a mais extensa da história e consiste num crescendo de obstáculos. Nesta fase, o protagonista e/ou os amigos enfrentam diversas dificuldades, cada vez maiores, que os põem à prova. Trata-se, enfim, da tentativa para restaurar o equilíbrio perturbado e regressar à normalidade. Contudo, para que uma história resulte e haja suspense, é preciso ensarilhar a vida ao protagonista e levantar-lhe obstáculos, adiando a resolução da dificuldade inicial.

E chegámos ao ponto mais alto e tenso da narrativa, conhecido como clímax. É nesta etapa que tudo se perde ou se ganha. Em qualquer caso, o leitor aguarda, de coração sobressaltado, o desenrolar dos acontecimentos. Pode ser uma luta de vida ou de morte, num livro de aventuras, ou o instante em que um homem confessa o seu amor a uma mulher, numa história romântica.

A derradeira etapa é o epílogo, também conhecido pelos termos “final”, “resolução” ou “desfecho”. Como afirma Michael Bassey Johnson, “A vida é como uma história: quando tudo se resolver, suspira-se de alívio”. Ou não. Algumas narrativas terminam mal, deixando o leitor revoltado contra a crueldade do mundo; pelo contrário, outras proporcionam a confortável sensação de ainda haver justiça, pelo menos, no universo do imaginário.

Proponho-lhe o seguinte exercício: a) Escreva cada etapa da sua narrativa num “post-it”; b) Disponha os autocolantes numa mesa; c) Mude a ordem destes, junte ou retire “post-its”, em busca da melhor maneira de contar a história.

Mancelos, João de. Manual de Escrita Criativa. Lisboa: Edições Colibri, 1.ª ed., 2012; 2.ª ed. aumentada, 2015.