Mostre e conte

O célebre homem de letras russo Anton Tchekhov lançava este desafio aos escritores aprendizes: “Não me contem que a lua brilha; mostrem-me o seu reflexo num vidro quebrado”. Contar e mostrar são duas estratégias narrativas válidas que todos os autores utilizam nas histórias.

Qual é a diferença entre ambas? Recorro a um exemplo simples, retirado da novela Cão como Nós, de Manuel Alegre, que relata as aventuras e infortúnios do Kurica, o seu animal de estimação favorito. Em dado momento, o narrador conta: “Ela (a bebé) estava a dormir num quarto ao lado de minha mãe. O cão tinha ficado a guardá-la. Pelo menos, autoatribuía-se essa missão. A meio da noite, a pequena deve ter chorado. Quando a avó a foi espreitar, o cão transformou-se em leão. Foi o cabo dos trabalhos”. O narrador podia simplesmente contar que o Kurica era um animal protetor. No entanto, optou e bem, por mostrar o cão a defender a bebé, com unhas e dentes, de uma pessoa que julgava ser inimiga.

Contar consiste, pois, em afirmar algo acerca de uma personagem, sem exemplificar ou pormenorizar. Pelo contrário, mostrar reside em pôr um indivíduo em ação, deixando que o leitor deduza determinadas caraterísticas da sua personalidade, emprego, ambições, manias, lado obscuro, etc. Por exemplo, um autor pode contar que o Efigénio é um voyeur ou, em alternativa, mostrá-lo a perfurar, com um berbequim, a parede do balneário das raparigas, para as poder espreitar durante a bendita hora do duche.

Em que circunstâncias se deve usar uma ou outra estratégia? A técnica de contar é mais adequada à narração de episódios longos, como o passado de um indivíduo, a genealogia de uma família ou a história de um país. Em poucas palavras, o autor pode relatar acontecimentos que se estendem por décadas, séculos ou milénios, sem desviar a atenção do leitor da narrativa principal. É também o processo usado na maioria das lendas tradicionais, contos de fadas e de mouras encantadas, histórias de bruxas e de homens-lobo.

Por outro lado, a técnica de mostrar permite que o leitor visualize as peripécias da personagem, sobretudo se as descrever em pormenor. Nesse sentido, é uma estratégia mais cativante e realista do que contar. Nas palavras de Nigel Watts, “Se quer que (…) as suas personagens ganhem vida, que os enquadramentos se tornem mais apelativos, dê-lhes os cheiros, as sensações, o sabor. Dois amantes a beijarem-se, saboreando o suor nos lábios um do outro; uma casa velha que cheira a maçãs e a pimenta; o tato frio das moedas que o rapaz dos jornais lhe dá”.

Sugiro-lhe, por fim, um exercício para treinar a arte de bem narrar. Mostre que a Marcelle, uma luso-brasileira, é bonita e atrevida, mas sem usar esses adjetivos. Deverá deixar que o leitor deduza tais caraterísticas a partir das atitudes, falas, pensamentos e vestuário da rapariga. Depois, leia o texto aos amigos e peça-lhes críticas e sugestões.

Mancelos, João de. Manual de Escrita Criativa. Lisboa: Edições Colibri, 1.ª ed., 2012; 2.ª ed. aumentada, 2015.