Os Dez Mandamentos do Escritor

Primeiro. Amarás a Literatura acima dos interesses comerciais, da sedução das tabelas de venda e da popularidade. Mesmo que isso signifique viver incógnito e ser reconhecido apenas depois da morte, como sucedeu a John Keats, Emily Dickinson ou Fernando Pessoa, entre tantos outros.

Segundo. Não tomarás o santo nome de escritor em vão. Entrega-te à arte de corpo e alma, assumindo-te como autor, ainda que apenas perante a família e os amigos. A escrita é um dom registado no teu ADN, personalidade e sonhos. Não podes escapar a esse destino, belo ou trágico, mas sempre único.

Terceiro. Trabalharás aos Domingos, às festas de guarda, e não conhecerás férias. Numerosos autores sacudiram a fadiga, depois de uma jornada extenuante no emprego, e dedicaram-se ao vício secreto da escrita. Por exemplo, Zora Neale Hurston, criadora do clássico Os Seus Olhos Contemplavam Deus, limpava casas de banho durante o dia, para poder escrever noite dentro.

Quarto. Honrarás os teus pais e mães, isto é os homens e mulheres de letras que te influenciaram, aceitando que na arte “do nada nada vem”. O escritor é uma gralha, que recolhe inspiração e ideias aqui e além, para construir esse ninho que é o texto. Todos os materiais cintilantes lhe servem: os livros, os filmes, os quadros e, claro, a vida.

Quinto. Não matarás os teus sonhos, nem desistirás de projetos quixotescos. A escrita requer persistência, mesmo nos piores momentos, quando os editores rejeitam um original ou os críticos zurzem o teu livro mais amado. Como afirmou Richard Bach, “um escritor profissional é apenas um amador que não desistiu”.

Sexto. Pecarás contra a castidade da folha em branco. Rasgarás centenas de páginas, rabiscarás blocos inteiros, escreverás no verso de guardanapos, como J. K. Rowling, a autora da saga Harry Potter. E nunca te sentirás inibido nem impotente perante uma folha limpa, pois guardas em ti o potencial imenso da imaginação.

Sétimo. Não plagiarás. A cópia constitui um crime punível pela lei, que arruinaria a tua reputação perante a comunidade literária de críticos, leitores e casas editoriais.

Oitavo. Não levantarás falsos testemunhos, não entrarás em polémicas inúteis, não sentirás inveja! Contudo, pugnarás pelas tuas causas políticas e éticas, usando a palavra como arma. Grandes escritores mudaram o curso da História, graças à coragem das suas obras. Por exemplo, Harriet Beecher Stowe, autora do romance A Cabana do Pai Tomás, expôs a desumanidade da escravatura. Mais tarde, a Guerra da Secessão opôs os estados do norte aos esclavagistas do sul e conduziu à liberdade quatro milhões de negros.

Nono. Não desejarás a musa, ninfa ou fauno de nenhum outro escritor.

Décimo. Não cobiçarás nunca os escritos alheios. O estilo tem de ser o teu, pois mais vale um mau original do que uma boa imitação. Ambiciona seres tu e, como dizia o poeta Miguel Torga, “de nenhum fruto queiras só metade”.

Mancelos, João de. Manual de Escrita Criativa. Lisboa: Edições Colibri, 1.ª ed., 2012; 2.ª ed. aumentada, 2015.