Publique o seu livro

A menos que você seja um jogador de futebol, um político, uma princesa ou uma figura célebre, a publicação é uma meta difícil de alcançar. No entanto, ninguém escreve para a gaveta, e até o escritor menos ambicioso sonha com o dia em que a sua obra chegará, ainda a cheirar a tinta e a papel novo, às livrarias.

Este ato é o equivalente intelectual a despir-se em praça pública, expondo-se ao aplauso, ridículo ou indiferença dos leitores e críticos. Por isso, assegure-se de que publica o seu manuscrito da maneira certa, através destes três conselhos fundamentais.

Primeiro: não faça edições de autor, também conhecidas, em Inglês, como “edições de vaidade”. É certo que esta é a forma mais simples de publicar, permitindo-lhe ter um controlo completo sobre o produto final. Contudo, toda a comunidade literária saberá que o livro não passou pelo crivo exigente de uma editora. E esqueça as recensões, pois nenhum jornal ou revista se dará ao trabalho de comentar uma edição de autor. Para além disso, como irá distribuir os exemplares? Porta a porta ou na livraria da esquina? Oferecendo-os a familiares e amigos? Tirando raríssimas exceções (lembro-me, por exemplo, de Miguel Torga), uma edição de autor está morta à nascença.

Segundo: se escreveu um livro policial, de ficção científica ou de poemas — géneros específicos — aposte numa editora que possua uma coleção na qual o seu livro se possa encaixar. Para tanto, passeie por entre as estantes de uma boa livraria, folheando livros e pedindo conselhos ao funcionário. Uma obra que se insira numa série é frequentemente comprada pelos colecionadores. E uma editora experiente saberá como promovê-la junto do público específico a que se destina.

Terceiro: espere, espere e espere. Um mês ou seis meses depois de ter entregado o original, chegará a carta da editora. Se o seu trabalho foi devolvido, não desanime. Stephen King recebeu rejeições suficientes para forrar as paredes da sala; contudo, hoje é um dos autores mais apreciados em todo o mundo. O mesmo sucedeu a J. K. Rowling, criadora da saga Harry Potter, que foi liminarmente recusada por várias editoras, e ao escritor sueco Stieg Larsson, cuja série Millennium só veio a lume postumamente. De longe, a carta de rejeição mais cruel foi endereçada ao célebre J. G. Ballard: “o autor deste livro está para lá de qualquer ajuda psiquiátrica”. Leia atentamente as razões invocadas pela editora e pondere a possibilidade de rever o original e de o apresentar a outra casa de publicações.

Contudo, se o seu original for aceite, parabéns! Bem-vindo ao mundo dos autores publicados! Agora, principia o trabalho de divulgação do texto, através de entrevistas na imprensa, rádio ou TV, e de sessões de lançamento em escolas, bibliotecas e livrarias. Não descure esta parte do processo ou será como um pai ou mãe que abandonou o filho. Vê-lo crescer no coração do público e da crítica é a melhor recompensa por todas as horas solitárias que passou inventando vidas no papel.

Mancelos, João de. Manual de Escrita Criativa. Lisboa: Edições Colibri, 1.ª ed., 2012; 2.ª ed. aumentada, 2015.