Reveja o original

Alguns autores detestam a última etapa do trabalho de escrita; outros, como Toni Morrison, vencedora do Prémio Nobel da Literatura, acham-na um “puro êxtase”. No entanto, todos sabem que a revisão de um manuscrito, antes de o submeter a uma editora, é essencial. Costumo dizer aos meus alunos de Escrita Criativa que é nessa fase de limar arestas que um texto se ganha ou perde. Por isso, é imprescindível saber o que se deve rever e como fazê-lo, para que a obra brilhe.

Frequentemente, no calor da escrita, um autor não presta a devida atenção ao estilo e ao conteúdo — e os erros acontecem. Não me refiro apenas a gralhas ou a puxões de orelhas na sintaxe, mas também a incongruências. Por exemplo, uma personagem tem trinta anos no primeiro capítulo, e trinta e cinco anos, uma semana depois; o cãozinho de estimação é um caniche no início da história e um rottweiler no fim; um jovem veste um sobretudo para ir jantar fora, num escaldante agosto.

Para evitar passos em falso, um autor deve fazer uma leitura técnica, desapaixonada ou até cruel da sua obra. Em primeiro lugar, tem de criar distanciamento em relação ao texto e esquecê-lo. Neste ponto, o célebre romancista Stephen King, especialista em narrativas de terror, afirma: “Aconselho-o a tirar uns dias de férias. Compete-lhe a si decidir quanto tempo deixa o seu livro repousar — um pouco como a massa do pão — mas, no meu entender, o período mínimo deveria ser de seis semanas. Durante esse intervalo, o original ficará a salvo numa gaveta de secretária, a amadurecer e (esperamos nós) a aveludar. (…) Quando chegar a tarde certa (que pode ter assinalado no calendário do seu escritório), tire o original da gaveta. Se lhe parecer uma relíquia alheia, comprada num ferro-velho ou num leilão de um particular onde mal se lembra de ter parado, é porque está preparado. Sente-se com a porta fechada (não tarda que a abra para o mundo), um lápis na mão e um bloco ao lado. Volte a ler o original”.

Durante a revisão, o escritor deve prestar atenção ao estilo. Tem de evitar, por exemplo, demasiados adjetivos; subtrair pronomes pessoais desnecessários (“O Fausto amava a Helena. Ele escrevia-lhe todos os dias”); e eliminar possessivos supérfluos (“a Maria riu-se, os seus olhos brilhando”).

Deve substituir ou cortar combinações gastas de palavras (“vingança cruel”, “destino terrível”); redundâncias (“há muitos anos atrás”, “projetos futuros”); ou os banais lugares-comuns e metáforas mortas (“o céu de cetim”, “as nuvens como algodão em rama”).

Tem ainda de ser específico, para que o leitor possa imaginar mais facilmente o cenário da narrativa (em vez de dizer “uma árvore”, precisar que se trata de “uma macieira”; não escrever “uma cobra”, mas sim “uma jiboia”).

Em suma, é fundamental selecionar sempre o vocábulo mais apropriado. Porque, como defendia o sábio escritor Mark Twain, “a diferença entre a palavra certa e a palavra errada é a diferença entre o relâmpago e o pirilampo”.

Teste o que acabou de aprender acerca da revisão, através de um exercício simples: a) Escolha um texto de sua autoria com um mínimo de vinte linhas e imprima-o; b) Com as sugestões de verificação que lhe forneci, reveja-o cuidadosamente; c) Compare ambas as versões e surpreenda-se.

Mancelos, João de. Manual de Escrita Criativa. Lisboa: Edições Colibri, 1.ª ed., 2012; 2.ª ed. aumentada, 2015.