Termine a história

Os escritores são como os viajantes. Alguns não iniciam a jornada sem terem planificado cuidadosamente o seu percurso e o destino da história; outros preferem vaguear ao sabor do improviso, deixando que as personagens os levem pela mão.

Katherine Anne Porter pertence ao primeiro grupo. Quando questionada acerca do seu método de trabalho, explicou: “Nunca começaria um conto se não soubesse como iria terminar. Escrevo sempre, primeiro, as últimas linhas, o último parágrafo, a última página. Assim, sei para onde vou”. Independentemente das opções, ambos os tipos de escritor concordam que o desenlace de uma narrativa é uma etapa crucial da história, e pode ditar o seu êxito ou fracasso.

Demasiados leitores avaliam uma obra em função do destino dado às personagens. Se os vilões são punidos e os heróis recompensados, fecham o livro com um sorriso, sabendo que foi feita justiça. No século XIX, a pressão do público sobre os escritores para que os romances “acabassem bem” era enorme. O novelista Henry James, autor de Retrato de uma Senhora, satirizava estes happy endings: “o desfecho consiste na distribuição de prémios, pensões, maridos, esposas, bebés e milhões de dólares”. Em alternativa, James sugere enredos com desfechos abertos ou semiabertos, mais estimulantes para o leitor. Este necessita de imaginar o fim da história e, assim, torna-se numa espécie de coautor do texto.

Em que consiste, então, um bom final? Em primeiro lugar, deve ser lógico e preparado por indícios, ao longo do enredo. Ou seja, a Branca de Neve não engana o príncipe, logo após o casamento, fugindo com um dos sete anões, porque isso seria incoerente.

Segundo: o autor não pode deixar pontas soltas, nem assuntos importantes por resolver. Num conto infantil, por exemplo, os leitores anseiam por saber o que sucedeu ao casalinho real, mas também querem ser informados acerca do destino da madrasta malvada.

Terceiro: o desfecho não tem de ser feliz, mas sim realista! No quotidiano, alguns mauzões também se safam e nem sempre os bons atingem a totalidade dos objetivos. Evite, pois, os finais idílicos dos contos de fadas, bem-intencionados, mas inverosímeis. Até narrativas majestosas, como o romance Moby Dick, de Herman Melville, podem terminar com um navio despedaçado, marinheiros mortos e uma baleia branca em fuga.

Quarto: surpreenda o leitor. Por exemplo, Ray Bradbury, um avozinho da ficção científica, terminou um conto com estas palavras inesperadas: “E de repente… um idiota qualquer ligou as luzes”. Calvino foi ainda mais original, com este desfecho: “E tu dizes: É só um instante! Estou a acabar de ler Se uma Noite de Inverno, um Viajante, de Italo Calvino”.

Em suma, um final feliz não é aquele em que tudo acaba em sorrisos, mas sim um sem pontas soltas, realista e original. Como afirma o professor Nigel Watts, acerca da arte de bem terminar: “Um bom desfecho é tão gratificante como coçarmo-nos quando temos comichão”. E ponto final.

Exercício. Para praticar a arte do epílogo proponho-lhe que escolha um conto tradicional (“Branca de Neve e os sete anões”, “A menina do capuchinho vermelho”, “Os três porquinhos”, “Rapunzel”, “O patinho feio”, “Cinderela”, etc.) e reescreva, de forma original ou mesmo subversiva, o seu desfecho.

Mancelos, João de. Manual de Escrita Criativa. Lisboa: Edições Colibri, 1.ª ed., 2012; 2.ª ed. aumentada, 2015.